‘CUIR’ FILME E EXPERIMENTO: 1ª EDIÇÃO DISCUTE DIVERSIDADE SEXUAL E DE GÊNERO

MariaBasura-Fuck-the-Fascism_-Roma.jpg

Entre os dias 07 e 20 de junho, a mostra reúne produções do cinema e das artes visuais assinadas por artistas e coletivos convidados do Brasil e de outros seis países da América Latina. A programação on-line e gratuita estará disponível nas versões em português e espanhol

Obras criativas dos diferentes circuitos do cinema independente e das artes visuais se encontram no ambiente web na CUIR — FILME E EXPERIMENTO — AMÉRICA LATINA. Entre os dias 07 e 20 de junho, a mostra apresenta visões artísticas da dissidência sexual e de gênero no subcontinente sul expressas em criações audiovisuais assinadas porartistas nascidos no Brasil e em outros seis países da América Latina: Chile, México, Colômbia, Argentina, Cuba e Uruguai. A programação gratuita da CUIR exibirá 42 produções organizadas em dez programas, além de uma série de debates, formada por oito encontros entre artistas participantes e o público. A produção é da proponente Ana Carolina Antunes e, a curadoria, do pesquisador e programador de cinema Luís Fernando Moura.

Serão exibidas produções artísticas em formatos diversos, entre a ficção, o ensaio, a performance, a videoarte e o videoclipe, em sua maioria de curta duração. Todas as obras convidadas para a CUIR poderão ser vistas durante os 14 dias de programação diretamente na plataforma própria (cuirfil.me), nas versões português e espanhol. Os debates serão transmitidos ao vivo pelo canal da mostra no YouTube (@encurtador.com.br/kAL16) e não são necessários cadastro ou inscrição prévios para acompanhar as atividades programadas. O projeto foi aprovado nos editais da Lei Aldir Blanc, no âmbito do estado de Minas Gerais.

Nove dos dez programas da CUIR fazem referência ao trabalho de uma/um artista ou coletivo de profissionais autoras e autores. Os convites desdobraram-se em indicações de outras realizadoras e outros realizadores, referências na formação criativa dessas e desses artistas. Dessa forma, cada grade temática conta com um conjunto de produções representativas de evidências, vidências e invenções latino-americanas e de pequenas genealogias afetivas de artistas. Fechando a grade dos programas, um deles é resultante da contribuição de uma curadora convidada, a cubana Maria Nela Lebeque Hay, que traz intercâmbio entre filmes em curta-metragem caribenhos e uruguaios.

A mostra CUIR visita distintas regiões do Brasil com produções do Amazonas, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Entre os representantes da cena mineira estão o coletivo As Talavistas (Marli Ferreira, Pink Molotov, Cafézin e Darlene Valentim) e a realizadora, montadora e atriz Gabriela Luíza. Material gravado por essas artistas em encontros audiovisuais na residência coletiva em uma casa gerou o curta “Pietá” (direção de Pink Molotov, 2020) e, agora, origina o média-metragem “Sessão bruta”. Com direção de As Talavistas e Gabriela Luíza, o filme estreia na mostra CUIR.

Entre os destaques, estão títulos do pernambucano Surto & Deslumbramento (André Antônio, Chico Lacerda, Fábio Ramalho e Rodrigo Almeida), coletivo convidado que terá um programa composto com filmes antigos e recentes, incluindo a estreia do curta “O nascimento de Helena”, coprodução PE/RN dirigida por Rodrigo Almeida. Desde que foi criado, em 2012, o coletivo Surto & Deslumbramento tem na prática de cinefilia sua matéria-prima para tecer trabalhos cujas temáticas se relacionam com as vidas LGBTQI+. Os integrantes do Surto & Deslumbramento indicaram para compor o programa a Anarca Filmes, produtora carioca de cinema e arte contemporânea com uma proposta de realização audiovisual de caráter experimental. Nesse programa foi incluído o “Usina-Desejo contra a Indústria do Medo”, da Anarca Filmes, peça interativa realizada para explorar as possibilidades do ambiente web em 2021. Ambos os coletivos são importantes a uma história desviante do cinema brasileiro contemporâneo, na qual a proposição mesma de filme, ou cinema, está na fronteira de uma expansão, tanto ética quanto artística.

Entre os destaques internacionais, a programação traz produções do México, da Argentina, da Colômbia e de Cuba. Entre convidados e indicados, a curadoria da CUIR recebe artistas representativos da produção contemporânea chilena, como MariaBasura, Felipe Rivas San Martín, Hija de Perra e Katia Sepúlveda. O público também pode assistir a uma seleção de oito filmes de uma das mais notadas artistas na videoarte mexicana, Ximena Cuevas. A reapresentação da seleção “Ximena Cuevas: Identidade, Sexualidade e Política”, exibida no festival Videobrasil, em 2001, traz às telas a potência do trabalho da videoartista que mescla identidade, sexualidade e política. Além dessa seleção retrospectiva, a CUIR apresenta filmes premiados em festivais internacionais de relevância. Um exemplo disso é o longa “La noche”, vencedor do prêmio do júri na competição argentina do BAFICI, em 2016. Há também estreias como o trabalho “The Pandemia CUIR Chronicles 2021”, uma compilação de filmes montada especialmente para a mostra pelo artista mexicano Gómez Peña e o coletivo La Pocha Nostra.

Recorte temático

O curador Luís Fernando Moura explica que emblema do “cuir” surge como “uma resposta das políticas, da pesquisa e das artes do sul global a maneiras de descrever dissidências sexuais e de gênero – ‘queer’ –, pondo em relação movimentos de resiliência, de afirmação e de invenção”. Em suas palavras, “a mostra nota como essa reação, expandindo limites da imaginação coletiva, explora aqueles do que se entende por filme, sendo incontornável aos rumos contemporâneos das artes e das histórias das poéticas, das culturas ou do ‘cinema’. Ao fim, o que se cria em imagem extravasa o projeto da sua própria descrição”, completa.

A proposta da CUIR consiste em apresentar um recorte de filmes produzidos no âmbito dessas redes de criação e promover diálogos em torno delas, valorizando traços de invenção e proposição artística e política. A mostra aposta na introdução de filmes originais e particulares, muitas vezes com circulação reduzida a circuitos locais, e em diálogos desdobrados a partir destes trabalhos, por meio de cartas brancas de curadoria e através de conversas com as realizadoras e realizadores.

Cuir/Queer

Nos últimos anos, o termo “cuir” passou a aparecer com frequência em trabalhos acadêmicos, nos circuitos das artes e entre a militância LGBTIQ+ na América Latina, e sensivelmente no Brasil. Em diferença ao termo “queer”, a noção designa experiências de dissidência sexual e de gênero no subcontinente sul, em contraste com a perspectiva eurocentrada, e intimamente relacionadas a questões raciais e de classe, bem como aos efeitos da colonização ibérica. Ao mesmo tempo, nota-se uma expansão emergente de redes artísticas, das mais diversas escalas e naturezas, em que obras de artistas latino-americanas e latino-americanos põem em evidência as vivências dessas comunidades e seus pontos de vista; obras de importância política reparadora e inventiva, e que muitas vezes inauguram caminhos disruptivos, surpreendentes e originais também para as linguagens das artes.

A CUIR retoma e propõe caminhos para mapear esses sentidos artísticos, reunindo artistas e coletivos que ocupam ora os centros, ora as bordas desses circuitos, de partida periféricos, novos ou limítrofes. A fronteira das identidades se converte em maneiras de perceber, aparecer e realizar. Cada uma destas obras, muitas vezes tão distintas entre si, carrega traços particulares de radicalidade na abordagem da criação de imagens. Filme a filme, o emblema do “cuir” se dobra sobre si mesmo, como se, mais do que conter uma ou outra filmografia, oferecida a uma insígnia, ativasse ou articulasse processos de limitrofia para além daquilo que pode nomear.

“Nossa aposta é de que aquilo que se chama “queer” – e “cuir” – está em todos os lugares, sempre e imediatamente à frente do sujeito, na sua frente, e de que alguns programas artísticos parecem, vivendo-o como matéria-prima, exaurir a ideia de dentro, para reforçá-la ou contrariá-la e então rompê-la, transformá-la em um novo mistério, em uma outra exigência. Diante destes filmes, dada a força disruptiva particular a cada um deles, o ‘cinema’ mesmo, ou sua vizinhança, são postos em xeque como circuito fechado e se retomam alianças entre sujeitos outros e novas aparições”, descreve a produtora Ana Carolina Antunes.

Serviço
CUIR – FILME E EXPERIMENTO – AMÉRICA LATINA
07 a 20 de junho de 2021
on-line | cuirfil.me | gratuita

Siga o Alguém Avisa no seu Canal no YouTube e confira conteúdos especiais.