AYO FALA SOBRE ARTE, FAMÍLIA E A IMPORTÂNCIA DA REPRESENTATIVIDADE DA MULHER NEGRA

Workroom, além de um espaço amigável para o público LGBTQIA, a casa também se tornou um dos espaços onde as artistas drags podem apresentar o seu trabalho. A Workroom (que prefere ser tratada no feminino mesmo) tem decoração inspirada nos cenários do reality show estadunidense RuPaul’s Drag Race) Assim como o programa que tem inspirado centenas de jovens a colocar para fora seu alter ego drag, provocando uma verdadeira eclosão de artistas essenciais da cena cultural LGBT da cidade, a Workroom procura incentivar cada vez mais que as drags tenham um espaço para apresentar a sua arte. Em parceria com a Workroom, o Alguém Avisa irá todas as semanas mostrar um pouco mais do trabalho realizado pelas Queens que se apresentam a cada sábado na Saturday Night Divas. Hoje você conhece um pouco do trabalho de AYO que se apresenta neste sábado (19), a partir das 21h.

Ayọ (prununcia-se Aiô), e é um nome de origem Iorubá, dialeto africano, que significa “alegria” ou “prazer”. Surgiu logo antes da primeira vez que a artista se montou pela primeira vez, ouvindo uma música de uma cantora do mesmo nome (Ayọ), uma afro-alemã, de origem Nigeriana e Alemã, que ao longo da vida veio resgatando suas raízes através da música e levando essa representação para lugares onde não conheciam, como países países europeus. Para Ayo, isso falava muito com o que ela buscava em drag e uniu tudo em um único nome. Além também de uma ancestralidade mestiça que se assemelha a dela.

As primeiras influências de Ayo foram as próprias mulheres de sua família, principalmente sua mãe e avó. Para a artista, sua mãe é a “maior referência de força, de resitência e delicadeza ao mesmo tempo”. O modo como a avó aproveitou a vida mesmo sendo uma mulher negra, que trabalhou desde cedo, enfrentou o mundo e a época em que vivia, não se deixando levar pelos preconceitos e pelo machismo que imperavam, dando tudo pela família, certamente influenciaram Ayo. A família da artista sempre esteve envolvida em arte, música, e desde sempre isso a movia muito. Não encontrando sua aptidão na música, foi atrás de sua própria forma de expressão. Sua maior influência como drag é Rupaul além de algumas drags do reality Drag Race, como Shea Couleé, Bob The Drag Queen e Bebe Zahara Benet “minha santíssima trindade”, brinca Ayo. Em outras artes Ayo aprecia: Beyoncé, Tina Turner, Aretha Franklin, Lauryn Hill, Michael Jackson, Freddie Mercury e Nina Simone na música. Viola Davis, Whoopy Goldberg no teatro. Na fotografia, outra forma de expressão artísica de Ayo,  David Lachapelle, Annie Leibovitz, Nan Goldin (cujo trabalho fotográfico encontrou-se com a vicência drag nos anos 70). Tudo isso se soma e inspiram sua drag todos os dias.

Sobre o que motivou Ayo a se tornar drag, ela conta que cresceu “sendo absolutamente fascinada por drag desde muito pequena. Meu primeiro contado foi criança ainda assistindo “To Wong Foo, Thanks for Everything! Julye Newmar.” Após assistir ele e “Priscilla”, sempre fui atraída por essa arte, porém não possuia muito acesso e entendimento a respeito. Cresci sempre atraída pelos elementos do universo feminino, pela moda, maquiagem e influenciada por toda a força das figuras femininas que me cercavam. Depois do “boom” de Drag Race, fui obtendo acesso ao longo que ia me descobrindo e aceitando quem eu era. Depois de me afirmar gay com orgulho, fui passando pelo processo de empoderamento como negro, ao longo que fui me inserindo na cena e frequentando festas e shows drag na região, o que se somou a influência de ver grandes drags negras e despertando em mim a vontade de experimentar. Além disso, vi nesta arte uma oportunidade explorar minha ancestralidade e reconhecer o valor que a cultura africana tem, além de evidenciar sua beleza e mostrar o quanto o negro pode tudo se reconhecer seu valor e da sua cultura ancestral. Assim nasceu a Ayọ, enfrentando de frente todas as questões que cercavam o Matheus e se mantendo de pé, empoderando-se em situações onde ele muitas vezes caira”.

Sobre as dificuldades da profissão, o Alguém Avisa tem percebido, que colar o cílio está certamente entre uma das coisas mais odiadas. “ALOKA!” Mas para Ayo, além dos cílios, ela reconhece que viver de arte é muito difícil no Brasil, e que é preciso muita luta, dedicação e amor por ela para poder seguir. “Há muito pouco reconhecimento a arte no nosso país, em todas as formas. Na arte drag então, nem se fala. Mas precisamos lutar para que ela cresça e ocupe cada vez mais espaços, para que as pessoas tenham acesso a essa arte e a outras expressões artísticas. Devemos lutar para levar arte para TODOS em TODOS OS LUGARES.”

Sobre o apoio da família, Ayo revela que se sente uma pessoa extremamente sortuda pela família a qual pertene e agradece pelos amigos que com os quais a vida lhe presenteou. Ayo revela “me sinto tão repleto de alegria por estar cercado por pessoas que me entendem, ou tentam me entender e compreendem o meu lugar no mundo e o que eu busco fazer nele. Ver meus familiares indo me assistir, se interessando e acompanhando essa arte num todo é tão lindo, estar com eles em um café conversando sobre arte, militância, a luta e outros assuntos que envolvem nosso mundo. Ter minha prima e minha tia fazendo parte dessa loucura, costurando e executando looks impecáveis é demais. Tudo isso é inexplicável. E meus amigos? Alguns deles eu posso dizer que salvaram a minha vida, me ajudaram a encontrar beleza, felicidade e força em mim sendo quem eu sou. Pessoas incríveis e inspiradoras que a vida trouxe pra perto de mim, que fazem parte desse pensamento e dessa vontade de ver o mundo mais igualitário, com menos ódio e muito mais amor. Hoje eu sou uma pessoa incrivelmente feliz graças a TODOS eles.”

Mas ainda há muita coisa que precisa ser mudada, para Ayo, “antes de mudar o mundo é preciso que muitas coisas sejam mudadas nos pequenos grupos. É preciso que nós LGBTQ+ respeitemos uns aos outros e seus espaços de falas de acordo com suas particularidades, conforme pertencem a outras minorias. Você não pode se declarar miltante, enquanto se vale dos teus direitos como homem cis e desvaloriza o lugar da mulher, da mulher trans e da mulher negra. Tu não pode dizer que luta pela igualdade, se tomas atitudes que reforçam a opressão ao negro, se apropria da sua cultura e entitula isso de “valorização”. Tão pouco, esquecer do “B” da nossa sigla, agindo como se bissexuais não existissem ou que sua luta fosse menor. Além de MUITAS OUTRAS coisinhas que devem ser mudadas, porém são coisas demais para serem ditas e preciso reconhecer que não tenho voz em demais questões. É preciso que comecemos mudando nossas próprias ações.”

Antes da nossa ‘rapidinha’, pedimos para ela completar a frase “Alguém Avisa que…”, ao que ela finalizou dizendo: “Alguém avisa que respeitar as diferenças e o amor é o primeiro passo pra um mundo mais igualitário e melhor, que destilar o ódio indiferença àqueles que são diferentes e lutam pelos seus espaços é retroceder a um passado injusto e só alimenta a violência que domina nosso mundo. Precisamos olhar uns aos outros como iguais.” 

RAPIDINHA:

UMA PESSOA: Minha mãe
UM LUGAR: Minha casa
UM OBJETO: Minha câmera
UMA PALAVRA BONITA:  REPRESENTATIVIDADE
UMA PALAVRA FEIA: Desigualdade
UM VICIO: Café
UM SONHO: Que todas as expressões de arte ganhem maior reconhecimento e visibilidade no nosso país
PREGUIÇA: De oportunismos
PRAZER: Comer, não disse o quê… ALOKA!
RAIVA: Tento não alimentá-la em mim
FELICIDADE: Estar cercado de pessoas que fazem a diferença no mundo
TRISTEZA:  Ver pessoas se valendo de privilégios e da desigualdade em grupos minoritários
MEDO: Solidão
DRAG: RESISTÊNCIA

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