QUAL A DIFERENÇA ENTRE UM HOMEM E UMA MULHER DE LINGERIE? SERÁ O OLHAR DE QUEM OBSERVA?

Recentemente o fotógrafo Alexandre Medeiros conversando com o nosso entrevistado Lucas Mello disse: “Vamos fazer umas fotos tuas!”. No início ainda sem um caminho definido, os dois sentaram  juntos e começaram a pensar pra que lado gostariam que o ensaio fosse. Sabiam que não seria nada normativo nem dentro de conceitos binários. Surgiu a ideia de trabalhar o corpo masculino com acessórios, lingeries femininas e muita maquiagem, tudo isso dentro do Projeto Divinas do fotógrafo.

Durante os últimos anos as mídias abordaram a questão LGBT muito mais sobre a perspectiva do G do que de qualquer outra, mas recentemente parece que os gêneros fluídos e as outras letras da sigla tem ganhado um espaço significativo. Perguntamos ao Lucas como o ensaio procurou abordar esta questão. Para ele: “com certeza durante anos o “gay” foi muito falado e visto na sociedade. Atualmente o diálogo está mais abrangente, trazendo para a conversa termos novos, personagens novos: Trans, Bis, Drag, etc. Com isso a dúvida e a crítica aumentam fazendo com que parte da ainda ignorante população atente para esses novos indivíduos. Trazer um ensaio onde temos personagens definidos biologicamente como masculino, mas em poses, roupas e imagéticas definidas socialmente como femininas, gera, no minimo, uma semente de -“mas o que é isso?” – Não passa despercebido. Nessa percepção causamos no receptor uma espécie de desconforto e/ou aprovação, ambas são interessantes para que o pensamento gere a crítica pessoal, a aceitação própria ou alheia. Além de promover um discurso de representatividade para o receptor.”

Sobre o desafio pessoal, Lucas conta que “foi uma grande quebra de tabus físicos, durante muito tempo da minha vida vivi na sombra de não ter o corpo perfeito, ainda não tenho, nunca terei, não existe corpo perfeito! Mas nunca pensei que estaria num ensaio como esses de lingerie, salto alto, cuspindo na boca de alguém! Minha auto-estima ficou lá em cima depois do ensaio e, principalmente, com as mensagens de parabenização e agradecimento pelas fotos, ter criado uma leve representatividade. É glorificante!

Entramos então no tema FETICHE. É sabido que muitas coisas que já foram fetiche hoje são bastante comuns. Perguntamos ao artista se ele acha que a tendência é sempre a alcançar a naturalidade ou se acredita que certos fetiches mantém o ‘tesão’ pelo próprio fato de serem ‘proibidos’? Para Lucas, “o tesão, o fetiche, a sexualidade, todos são pontos muitos pessoais, o que pode ser um ato de libertação e fetiche pra mim, pra ti pode ser café com leite. Acredito que abordar um tema como esse em um ensaio de fotos vai atingir de forma mais brusca aos que estão longe desse cenário e de forma mais natural aqueles que já tem conhecimento e já estão familiarizados com práticas fetichistas. O que não podemos é deixar que a crítica por algo que nos é diferente seja ofensiva ou que criemos pré conceitos baseados naquilo que nos é mostrado, sem termos um embasamento concreto sobre aquilo. Isso é ignorância, é burrice, é preconceito”, finaliza.

Sobre o clima durante as fotos, o modelo comenta que foi pura alegria. As instruções foram dadas pelo Alexandre, (fotógrafo e diretor do ensaio), logo no íncio da tarde, e toda a equipe sabia o que ia ser feito. Ele sabia o que queria e pretendia com o ensaio. Com uma equipe de 10 pessoas, entre fotógrafo, modelos, make, assistentes, todos estavam muito a vontade, mesmo durante a tiragem das fotos, com os modelos em roupas íntimas, todos estavam ali profissionalmente com seus afazeres, com seus encargos. Para Lucas, isso facilita o processo e gera um calor humano sem igual para o set.

Quando perguntamos sobre o retorno positivo e negativo das fotos ele comentou que sim tiveram críticas, mas que tudo é uma questão de ponto de vista. Segundo Lucas, “recebi críticas de amigos próximos, que acharam muita exposição – “acho que tu não precisava ter feito assim, Lucas!” de contra ponto, meu avô de 85 anos, quando mostrei as fotos pra ele disse: “Ta muito bonito, mas tinha que ter feito a barba!” É tudo uma questão de analisar a crítica, ver de quem vem e como vem, existe o discurso de ignorância, de falta de infirmação e o de ódio, de preconceito formado sem nem saber exatamente o porquê. A minha dica é: FAÇA! Liberte-se! Se precisar criar um personagem, crie! Se precisar tomar um goró pra amolecer, tome! Mas não deixe de fazer, a vida é uma, o dia só tem vinte e quatro horas.

Sobre o trabalho do Alê Medeiros, Lucas aponta a importância de um pensamento crítico sobre a representação. Para ele, cada fotografia traz esse pensamento de “o que é isso” em indivíduos que estão inseridos em um mundo onde o objeto de desejo e abuso, infelizmente, ainda é o feminino, sendo usado de forma abusiva e desrespeitosa, por muitas vezes. A pergunta lançada com o ensaio desenvolvido por eles é: “Qual a diferença de um homem com lingerie e de uma mulher? A diferença está nas fotos? No olhar do receptor? No olhar de quem tira as fotos? Saca? Até que ponto é diferente ou nós construímos essa diferença. É trazer uma nova análise para algo tão comum e simples, que é a sexualidade retratada como ele pode, deve, talvez seja. O que é sexual? O que te dá tesão?”

Participam das fotos também os modelos Andy Americo e Amy Adora. Maquiagem de Josiane Aguiar.

Confira o teaser do ensaio:

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